Iraklion-Djibouti

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    "ORELHAS DE BURRO"

   
A minha saída de Iraklion atrás do Delfim teve contornos que me fizeram lembrar a minha instrução primária. Eu sou daqueles pilotos que cometem montes de erros, ao contrário de tantos outros que nunca falham. Helas!!!

    As confusões geradas pela bagagem que tenho de meter no avião, sempre com a ajuda de alguém, fizeram com que executasse a inspecção exterior às prestações. Enquanto o Delfim acomodava a bagagem eu ia trabalhando cá fora, interrompido várias vezes para lhe explicar aonde queria isto e aquilo. Esta falta de atenção gera asneiras que me têm saído, algumas delas, caras e outras das vezes, no mínimo, humilhantes. Foi o caso.
    Já o Delfim subia pela direita após a descolagem, quando me mandaram alinhar e descolar. Fi-lo de imediato. Motor aos "copos" e vai daí que se faz tarde. O meu Bonanza, começou a arrastar os seus 33 anos de idade vergado pela pesada carga de combustível. Uns módicos 220 galões (façam a conta multiplicando por 3.8, para saber os litros, que estou muito cansado).
    Durante o trajecto da descolagem, tinha à minha esquerda uma verdadeira galeria de profissionais no estacionamento (Iraklion tem muito tráfego durante os meses turísticos do Verão). Penso que muitos deles, enquanto esperavam pelo embarque dos seus passageiros, estariam observando aquela "inusitada penúria de avião" a descolar. De certeza que fizeram um "zoom" para o meu avião e apuraram os ouvidos na frequência, logo que abortei a descolagem.
    Pois é... enquanto descolava, vi que a velocidade não aumentava. Não tinha tirado a "porra" do tubo de Pitot. O que eu disse naquele cockpit não se pode, aqui, transcrever, mas imagina-se... Seguiu-se, então, a parte caricata e humilhante de tudo isto.
    Depois de dizer à Torre de Controlo que tinha abortado a descolagem, recebi instruções para sair da pista rápido. Obedeci e a partir daí, comecei a passear as minhas "orelhas de burro" perante aquela panóplia de "lentes da pilotagem". Naquele momento recuei meio século no tempo e lembrei-me do professor Costa, das reguadas e naturalmente das "orelhas de burro", de exibição mandatória à janela da sala de aulas para o recreio, quando os erros nos ditados e na tabuada eram, a seu ver, imperdoáveis.
    Enquanto a controladora me perguntava qual era o problema, eu ia dizendo que precisava de assistência. Ela insistia em saber que tipo de assistência e eu respondia que bastava que ela mandasse alguém ao avião. Imaginava aquela malta toda à gargalhada, vendo-me passar na sua frente, de "enorme" tubo de Pitot pendurado. Então aí, para minorar toda aquela desgraça e calar a controladora que não parava de me chatear, disse na rádio, alto e bom som:

"Sou um Wheelchair Aviator, não posso mexer as pernas. O problema que tenho qualquer pessoa o resolve!"

Penso que, então, todos aqueles "lentes", devem ter dito:
"Porra, afinal o gajo é coxo e anda por aqui a voar por estas bandas, nesta trotinete, algum valor deve ter."

A condutora do "follow me", veio junto do avião e tirou o maldito tubo, entregando-o pela minha janela. Pouco tempo depois descolava, tinha perdido 35 minutos.

Guardei as "orelhas de burro" para a próxima.
 

António Faria e Mello

 

a seguir... Djibouti-Seychelles

 

 
  © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003