Djibouti-Seychelles

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    "O TÁXI DE DJIBOUTI"

   
Tenho o privilégio de ter viajado um pouco por esse Mundo fora e um dos indicadores que observo à chegada dos aeroportos são os táxis. Se estão limpos, se são de um modelo recente, se têm amolgadelas e se as mesmas se distribuem a toda a volta da viatura (o que significa, por exemplo, ser o condutor desleixado a medir as distâncias. Defeito afim das mulheres...).

    Por fim, depois de entrar no seu interior, verifico da sua limpeza, se tem ou não caixa automática, se tem taxímetro, etc, etc. Naturalmente, depois segue-se a apreciação do motorista. Se está bem vestido, se não cheira a suor, se conduz com cuidado, se pára nos sinais vermelhos e se não buzina muito. Vem então a conversa que só terá lugar se a minha apreciação, até aí, for no mínimo de 12 valores (na escala de 20). Caso contrário nem perco tempo a mexer os maxilares. Certamente que muitos dos pacientes leitores deste site se lembrarão do famoso Alvito, ali para os lados da Ajuda, um parque de sucata de automóveis aonde se poderia encontrar de tudo. Ainda lá fui algumas vezes.
    Pois bem qual a relação possível entre o Alvito e o parque de táxis de Djibouti ? Muito fácil: o dono do Alvito não encontraria ali uma única peça que valesse a pena comprar, o que significa a diferença abismal entre lixo e sucata.
    Mal ali chegados o Delfim e eu, amolgados por 14 horas e 30 m de voo e temperados por um clima tórrido, olhámos indiferentes para tudo aquilo. Todavia, mal a nossa viatura fez marcha atrás para nos recolher a nossa atenção foi desperta como se durante uma fase de sono violento a bordo o motor, subitamente, parasse.
Aquela "coisa" que entretanto se imobilizou na nossa frente, a custo e guinchando o seu "ABS" tropical era o nosso táxi de Djibouti. Dele saiu um ser, africano de raça, alto e tão magro que logo pensámos, jamais por cima dos ossos, ali se agarrara um pedaço de carne. Pele e osso...
    Enfim parecia um daqueles corredores do Quénia e de outros países africanos, que trabalham como distribuidores de telegramas dos Correios dos seus países e naturalmente quando os põem nas pistas para correr por prazer, pulverizam tudo o que é recorde, deixando para trás aqueles atletas loiros espadaúdos e cheios de Isostar. Mas continuando....
    O nosso condutor pregou uma palmada na porta da bagageira que se abriu por encanto. Dirigi-me para o lugar da frente, saltei para o seu interior e agarrei-me à pega do tejadilho. Afinal a melhor coisa que o carro tinha. O Delfim entrou para trás e o condutor para a frente, iria começar a parte mais perigosa da nossa segunda etapa - o trajecto para o hotel.
    Mal se sentou, o condutor tirou os sapatos (possivelmente para ter mais sensibilidade) e pôs o motor em marcha. No local da chave havia um buraco, mas em baixo havia um interruptor para a bateria e um botão para o motor de arranque. Simples... Ligou as luzes (tão fracas como a lanterna de mão do Delfim) e arrancou aos solavancos. Ao voltar para a esquerda, a porta do meu lado abriu-se. Valeu-me a pega aonde entretanto me agarrara com as duas mãos e um fulano que
entretanto correu para o carro e a fechou de forma violenta. Verifiquei que do lado dentro havia um arame a substituir o fecho da porta. Enfiámos por uma avenida mal iluminada por onde o nosso táxi começou a aumentar a velocidade. Sempre que carro ou viatura se aproximava em rota de colisão connosco, o motorista começava a buzinar esquizofrenicamente e de mão fora da janela pedia a todos que se afastassem dele. Mas o que é facto é que todos obedeciam aos seus pedidos.
    Seguiu-se então a primeira ultrapassagem. O nosso táxi pouco mais andava do que a viatura que tentava ultrapassar e em sentido contrário vinha um camião. A situação era tal que, pelas minhas contas, iríamos cruzar-nos os três ao mesmo tempo. Enquanto o nosso motorista não parava de esbracejar e tocar a buzina como um louco, eu pensei - "é agora!" e fechei os olhos. Houve um cruzamento tipo Red Arrows.
    Continuava tudo vivo, mas a mim, as pernas tremiam-me. Olhei para o motorista: impávido e sereno prosseguia como nada se tivesse passado. Pedi aos Deuses que nos deixassem chegar vivos ao Hotel. Eles atenderam o nosso pedido.


António Faria e Mello

a seguir... Seychelles-Colombo

 

 
  © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003