Colombo-Singapura

antes... Seychelles-Colombo


    Descolámos de Colombo para Singapura, pouco depois do pôr do Sol. Primeiro o Delfim, e eu de seguida. O tempo estava bom e conseguimos convencer o Controlo de Tráfego Aéreo a tornear a ilha, entroncando mais à frente na rota inicialmente prevista, pois, para seguir os procedimentos conforme estão publicados, teríamos de subir muito alto, uma vez que a ilha é bastante montanhosa.
    Pouco tempo depois, consegui localizar o Delfim que voava à minha frente. Um vento de cauda razoável aumentava a nossa velocidade e também a nossa boa disposição. Íamos conversando pela rádio, quase com se estivéssemos ao telefone.
Boca daqui, boca de acolá e tudo se desenrolava às mil maravilhas, eis senão quando o Delfim me diz :
     "Hoje está tudo jóia"
   Naquele preciso momento, raios me partam senão foi, o GPS (o equipamento principal de navegação) apagou-se. Um arrepio entrou-me pelos dedos pés e saiu instantaneamente pelo pouco cabelo que tenho.
     "Delfim tenho um problema no sistema eléctrico, o GPS já foi à vida e parece que o resto vai a seguir", disse eu e mais não fui capaz, pois todo o painel de avionics se apagou a seguir. Só voltaria a falar com o Delfim no aeroporto de Seletar (Singapura) depois de ele ter aterrado cerca de vinte minutos depois de mim.
Mas continuando...
    Naturalmente que o Delfim percebeu que eu estava com problemas no sistema eléctrico e assumiu desde logo o comando das "operações" ou seja a tarefa de me guiar até ao destino. Entretanto, eu agarrei-me às luzes do seu avião como um moribundo se agarra à vida.
     Sabia que ele estaria muito preocupado comigo. Passou-me pela cabeça, se entretanto, ele não me julgaria já na água.
Enfim, um verdadeiro sufoco. A páginas tantas resolvi pôr-me ao seu lado e fazer-lhe sinais com uma lanterna, regressando de novo à sua cauda, para continuar a segui-lo como se fosse um Deus. Esta manobra repetiu-se umas três vezes, que me lembre. Um delas, passei-lhe uma rebarba tal que o assustou, pois fez uma manobra evasiva violenta. Pelo menos, assim me pareceu.
    A certa altura, o cansaço era tal, pois esta situação vinha-se mantendo há mais de seis horas, que comecei a sentir verdadeiras alucinações. Parecia que, o avião do Delfim,  estava sempre a voltar para a direita e descer. Todavia, a segurar os comandos com ambas as mãos e de pilha presa nos dentes, verificava pelo horizonte artificial e pelo gyro que o meu avião voava de asas direitas e mantendo o rumo.
     Como estivesse uma noite de luar, a luz da mesma projectava as sombras das nuvens na água, parecendo-me a mim, a toda hora, a ilha da Sumatra ou seja o fim do Oceano Índico, mais propriamente dito, o fim da maldita banheira.
     Entretanto, a mim pareceu-me ver na noite escura o nascer do dia (crepúsculo matutino), mas seria ou não?? Comecei a duvidar das minhas próprias sensações. Finalmente, pareceu-me ver uma montanha com um nuvem por cima e luzes nas encostas e junto a ela, no mar, também descortinava luzes de embarcações (confirmei mais tarde com o Delfim, já aterrados em Seletar que de facto eu começara a ver a ilha Sumatra).
     A luz começou a aumentar, ao ponto de eu não ter dúvidas que o Sol estava nascendo e com ele a esperança de me safar desta. Vi então, claramente, a ilha Sumatra e, também curiosamente, perdi a minha boa estrela "o Delfim".
Liguei o meu GPS, cujas pilhas estavam a meia carga, razão porque poupei o seu uso para a parte final da viagem e vi o rumo que teria de seguir a Seletar, o meu destino. Aproei ao mesmo e desliguei de novo o GPS, por causa das coisas. Era o único equipamento que me restava.
     A distância ia encurtando e com ela, a esperança de acabar de vez com aquela agonia. Liguei de novo o GPS (desta vez para não o voltar a desligar). Estava 6 milhas náuticas de Seletar. O tempo estava razoável para me permitir chegar ao meu destino olhando para o terreno ou seja, em condições de vôo visual.
     Tinha agora apenas o problema de pôr o trem em baixo. Sabia, de situações anteriores, que era uma manobra demorada, dura e morosa em que, normalmente, se perdia altitude. Desta forma, comecei à procura, de uma zona livre de obstáculos e encontrei uma, à minha esquerda.
     De imediato para lá me dirigi. Vi que nessa área, existia uma pista. Comecei a baixar o trem manualmente rodando com a mão direita uma maldita manivela (a módica quantia de 52 voltas) e enquanto tal, ia procurando manter-me em cima daquela área sempre voltando pela esquerda. De repente, aparece um caça à minha esquerda, voando em vôo lento com muita dificuldade. Pensei num ápice, "este gajo só para me vir encorajar ainda entra em perda e se espeta no chão..." e continuei a dar freneticamente à manivela.
     Um pouco mais à frente a mesma coisa. Outro caça e fazer sinais e eu nada, toca de dar à manivela. Finalmente verifiquei que o maldito trem estava em baixo. Prossegui para o destino, vi a pista e aterrei. Nem sequer tive de pedir autorização, pois rádios era coisa que há quase nove horas não funcionavam a bordo.
     Depois de aterrado prossegui para o estacionamento e parei o avião aonde, um sinaleiro no chão, me indicou o sítio. De seguida veio o camião dos bombeiros e parou a viatura mesmo na minha frente, numa atitude algo agressiva e para mim despropositada.
     Será que...???
     Alguém se aproxima e diz :
     "Não pode sair do avião enquanto não chegar a polícia"
     Percebi de imediato o que estava acontecendo......os caças a dizerem-me adeus (!!??), aquela área livre de obstáculos, etc,etc.
     Não me enganei. O calor era intenso e difícil de suportar dentro do avião. Vi o avião do Delfim que entretanto já tinha aterrado e se dirigia para o estacionamento. Fiquei muito satisfeito com isso. Em breve estaria falando comigo no meu avião. Ao fim de bastante tempo, apareceram cerca de meia dúzia de polícias. O Delfim e eu, fomos levados para uma sala grande no aeroporto aonde, durante cinco horas, mais de 25 polícias (contei-os eu), nos fizeram a cabeça em água com perguntas de todo género que imaginar se possa. Finalmente, apareceu um tipo que pela quantidade do "estrelado" que tinha nos ombros, era "gajo grande", precisamente o Chefe da Esquadra da Polícia.
Ouvimos então a criatura dizer :
     "Existem ainda coisas por explicar, portanto os senhores terão que ir à esquadra".
     A mim e ao Delfim caíram-nos os queixos no chão. Mas o curioso disto tudo é que fomos na "na ramona"para a esquadra.  Quando nos vimos dentro de semelhante viatura, com grades a toda a volta, olhei para o Delfim e desatámos a rir à gargalhada. Como eu gostaria de ter uma fotografia desse momento. Ao fim de duas horas na esquadra, fomos libertados e levados ao aeroporto num carro da polícia.
     Impõe-se aqui referir, a forma educada e gentil como fomos tratados pela polícia. No dia seguinte, apareci na primeira página dos jornais e fui entrevistado pela TV Canal 5, que saiu no telejornal da nove.
 
Por acaso toda esta encrenca surgiu, no dia 19.


António Faria e Mello

a seguir... Singapura-Bali

 

 
  © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003