Pago Pago-Christmas Island

antes... Pago Pago-Christmas Island (Adiado)

   
    Saímos cedo do hotel e, chegados ao aeroporto, tudo se processou rapidamente. Em breve estávamos no ar no rumo para Christmas. O vôo em si não teve qualquer história. O Delfim continua com o seu HF fora de serviço e tenho sido eu, quem se tem encarregado da banda curta. Às vezes custo a atinar com o equipamento, que conheço francamente mal. Cabe aqui explicar que, o equipamento HF é apenas utilizado para comunicar em longas distâncias, o que significa duas coisas:
    - Nunca se usa em aviões pequenos, pois dadas as suas autonomias reduzidas apenas voam pequenas distâncias se comparadas com aquelas que nós fazemos. Daí o uso de VHF, incomparavelmente mais simples de operar e de uma nitidez de recepção extraordinária. Portanto o piloto de aviões pequenos opera o HF, regra geral, mal. A não ser que seja rádio amador e tenha portanto, profundos conhecimentos de como se opera naquela maldita "banda curta".
    - Nos aviões grandes que voam grandes distância, o equipamento HF é de grande sofisticação. As grandes altitudes a que voam, a que se associa uma potência de saída enorme, conferem aos grandes transportadores uma grande facilidade de comunicação em HF. Além disso, quando estão no ar, abafam qualquer rádio como aqueles que eu e o Delfim temos nas nossas máquinas. Mas as coisas não se ficam por aqui. Os meninos da linha aérea, para não cansarem os seus tímpanos, não necessitam estar em escuta permanente em HF. A frequência da estação introduzida no seu rádio a bordo quando quer com eles contactar, utiliza o código SELCAL (previamente dado pelo piloto à estação). Assim, no cockpit, ouve-se "...badalin, badalão...". Aí um dos pilotos, carrega num "pinchavelho" e ouve aquilo que a estação tem para transmitir e "zás, que se faz tarde,..", desliga de repente o referido "pinchavelho" e põe os ouvidos ao fresco daquela barulheira toda que são as comunicações em HF.
    Portanto, nós os pequeninos, ou conseguimos estabelecer comunicação em HF ou pedimos aos grandes que façam um "relay" para nós (significa que eles estabelecem o contacto com a estação e transmitem a nossa mensagem). Ás vezes a conversa até se inicia em VHF, pois os grandes mantêm escuta obrigatoriamente em 121.5 (frequência de emergência) e frequentemente na frequência específica da área (air to air chat), isto apenas em zonas remotas (assim diz na carta, desconhecendo eu qual o critério para tal classificação). Para mim zonas remotas são aquelas em que o Judas deixou as sandálias que, por acaso, até estão na moda e onde eu ou qualquer mortal se sente bestialmente só.
   
    Nesta viagem andei a apanhar bonés uma data de tempo, mas por fim, consegui contacto positivo com São Francisco em HF e jamais o perdi, até à nossa aterragem em Christmas Island.
    Eu e o Delfim já temos agarrado ao corpo um cansaço residual do qual dificilmente nos libertaremos enquanto a Volta não terminar, disso o organismo vai-nos passando a mensagem que algo está desestabilizado. A factura vem a pagamento mais tarde e às vezes com juros acrescidos. Por mais descansados que possamos estar, rapidamente entramos na "zona amarela", aí pelas 5 a 6 horas de vôo, seguindo-se a " zona vermelha", à passagem das 10 hrs. Uma verdadeira martelada no crânio, aonde os auscultadores passam a exercer nos parietais uma pressão horrorosa como a tentar rebitar-nos uma orelha à outra. O apetite começa a ter contornos perfeitamente virtuais, porquanto deixamos de perceber se de facto queremos ou não comer, já que a uma maçâ, damos-lhe uma dentada e ficamos cheios como se tivéssemos engolido um panelão de favas com chouriço. Fico-me hoje por aqui, nestes considerandos sobre fadiga.

"...criança sofre, sim..."

    Finalmente, começámos a ver a ilha de Christmas (um atol no Pacífico como tantos outros, ali existentes). Perdoem-me a comparação, parece o tampo de uma retrete com uma abertura na frente. O atol, sendo uma ilha, tem a vantagem de ser totalmente plano o que é um bem para os aviadores. As ilhas a que estamos habituados, são a maioria das vezes sinónimo de montanhas, ventos esquisitos e nevoeiros agarrados ao chão.
    Aterrámos um atrás do outro, sem a ajuda de qualquer controlador (há quem não acredite em semelhante milagre!!!) e prosseguimos para o estacionamento. Observando a manobra estava um tipo de óculos escuros e pele escura também. As feições nada tinham a ver com as gentes de África, descendente talvez do povo da melanésia ou polinésia, uma coisa era certa, o tipo era a simpatia em pessoa. Tudo fez para nos simplificar a vida. Pouco tempo depois, deixava-nos à porta do Hotel Captain's Cook. Tomado o banho da ordem, tínhamos à nossa frente em cima da mesa uma travessa cheia de pequenas lagostas cortadas ao meio e grelhadas. Um luxo que nada tinha a ver com o hotel, pobre e desmazelado até dizer chega, mas que todos os visitantes tinham de aceitar sem refilanço - era o único!


António Faria e Mello

a seguir... Christmas Island-Honululu

 

 
  © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003