St. John's-Lajes

antes... Bangor-St. John's

   
    Tocou o telefone para nos acordar às 03:30 da manhã. Foi o Delfim que me chamou, pois como dormia ferrado não ouvi o toque de alvorada. Tínhamos jantado no quarto na véspera e a comida estava óptima, talvez por isso, adormeci profundamente, o que foi raro em situações idênticas ao longo da VM. Geralmente quando tinha escassas horas para dormir antes de partir para qualquer lado, pura e simplesmente não conseguia pregar olho.

    Arranjámo-nos e depois de um pequeno almoço sumário, fomos para o aeroporto, ainda de noite cerrada. O mesmo situa-se num ponto mais alto do que a cidade e à medida que nos aproximávamos, podia-se ver o extenso nevoeiro que cobria toda aquela zona. Nada que nos desse qualquer satisfação, antes pelo contrário. Por fim, o nosso transporte imobilizou-se junto aos nossos aviões. O condutor informou :
    "...há pouco, quando daqui saí, não se via nada do outro lado da pista, mas agora já se consegue ver a gare dos passageiros...". St. John's tem um ex-libris, conhecido de todos os pilotos que demandam aquelas paragens - o mau tempo.

    Em tempos, era conhecido pela extraordinária equipa de meteorologistas que informavam, com extremo rigor, os pilotos que atravessavam o Atlântico Norte. Tinham uma vasta experiência de tudo o que se passava nos níveis baixos a que voavam os aviões pequenos. Por razões económicas foram mandados para Halifax e foi dali que recebemos (via fax) um extenso dossier meteorológico, em nada comparável ao briefing criterioso que aqueles magníficos profissionais nos davam.

Os tempos mudam...

    Fomos para os aviões e começámos a preparar tudo para a partida. O Delfim vestiu o fato de borracha (e bem) para evitar as consequências da hipotermia, caso fosse ao "banho". Vendo-o naqueles trajos, de aspecto algo extra terreno, pensei "...fazes mal em não vestir aquela vestimenta, pois se te afogasses, afogavas-te mais quentinho...". Mais tarde, em vôo para os Açores, disse-me: "porra, já tenho os t... quase assados por causa deste maldito fato...".
    De qualquer maneira, acho que se deve usar o fato, vários pilotos se salvaram por isso.
    A visibilidade horizontal estava quase com uma milha, mas a vertical andava pelos 200 pés (cerca de 70 metros). Não estava uma maravilha, mas dava para descolar.

    Em breve pus o motor em marcha, para carregar o meu GPS com os pontos da viagem sem descarregar a bateria. O Delfim, só fez tal bastante depois de mim. Pedi então pela rádio a minha autorização de vôo (clearance), logo seguido pelo Delfim. O controlador, sabendo que íamos voar para o mesmo sítio, passando pelos mesmos pontos, resolveu dar-nos a mesma clearance, alterando apenas as nossas altitudes e o código para o radar.

    "To Charlie Sierra Alfa Zulu India and Charlie Sierra Alfa Oscar Delta, your clearance, are you ready to copy?".

    Tal era o nervoso que, ouvi a minha voz dizendo (pareceu-me outra pessoa a falar por mim) : "Go ahead sir"
    O Delfim também informou estar pronto a copiar. Começou então a ladainha do controlador com a indicação do ponto de saída, seguida de todos os outros pontos da rota até à Base Aérea das Lajes na ilha Terçeira, tudo isto em coordenadas.
    Esse primeiro ponto tinha uma indicação alfanumérica que estava escrita nos nossos planos de vôo com as respectivas coordenadas, em números muito pequenos. O controlador, em vez da indicação alfanumérica, deu as coordenadas e nós que esperávamos que "o prato saísse para um certo lado e para lá apontámos as canhotas", vimos o prato sair para o lado oposto e "errámos o alvo", foi o início da verdadeira conversa de surdos que se gerou. À terceira vez que o controlador nos disse a clearance, copiámos finalmente a dita cuja.

    Vale a pena aqui realçar que, se hoje tivéssemos de descolar de S.John's para as Lajes não teríamos, o mínimo dos problemas em perceber à primeira tudo aquilo que o controlador nos dissesse. Há sempre uma primeira vez e quando essa estreia se faz debaixo do nervoso de ir atravessar um oceano num monomotor, descolando de noite em condições de tempo precárias, venha o mais pintado dizer "que tudo isto era canja!!".

    É óbvio que o controlador está na sua posição para ajudar (há quem assim não entenda!!!) e aquele em St. John's sabia das nossas dificuldades e fez aquilo que um profissional digno desse nome se obriga - AJUDOU.

    A Torre deu-nos autorização para iniciar a rolagem. O Delfim arrancou.

    Confesso que ia um bocado enervado, mas fazendo o possível para evitar as "asneiras". Após a descolagem do Delfim (disse-me depois que quando saiu do chão levou uma forte rajada do lado esquerdo), alinhei o avião e descolei logo a seguir. Era ainda de noite, mas via-se que a manhã não tardaria a aparecer.

    Após a descolagem fui transferido para o control de Gander. Assim fiz. Pouco tempo depois lá veio o costume, darem-nos duas frequências (primária e secundária) de HF e mandarem-nos contactar de seguida utilizando o referido equipamento.

    Os leitores assíduos deste site e o do Delfim, sabem dos problemas que tivemos com o rádio HF, durante a VM. Foram mais as vezes que não conseguimos falar do que aquelas em que conseguimos contacto positivo. Vi logo o filme, do estilo daquele que se passou à saída das ilhas Christmas no Pacífico. Aliás, os Canadianos não brincam em serviço. Eu experimentei e não consegui falar com Gander, quanto ao Delfim, esse nem chegou a tentar. Valeu-nos um avião grande que nos fez os "relays" e do Lion, piloto de ferry Sul Africano que voava também para os Açores. Mandaram os nossas "position reports" e safaram-nos da enrascada, para já. Todavia, o controlador levado pela inspiração Divina, deu recado aos outros aviões para nos avisarem que partir daí, podíamos utilizar a frequência VHF de 123.45 (relays) para enviarmos, de futuro, as nossas posições para Gander. Fiquei tão satisfeito com a ideia que me veio uma fome feroz e comi uma óptima sandwich, providenciada pelo hotel em ficáramos. A partir daí, o vôo não teve qualquer problema para nós, a não ser o vento de frente que em certas alturas foi superior a 25 kts. Restou-nos voar horas e horas por cima daquela imensidão oceânica, desta feita sabendo que íamos acompanhados pelo imenso tráfico dos "pesados" que voavam por cima de nós, nas duas direcções do Atlântico Norte. Sabíamos também que na sua maior parte, mantinham escuta na frequência de 123.45 e portanto estavam contactáveis por nós.

    Já muito perto dos Açores, resolvi contactar Sta. Maria em HF, no que fui bem sucedido. Pedimos uma "clearance" que cortava umas quantas milhas à rota prevista que nos foi amavelmente concedida por Sta. Maria. Devo aqui frisar que os controladores Portugueses foram de grande amabilidade para connosco, circunstância que penhoradamente agradecemos.
    A certa altura, o Delfim chegou à vertical da Flores e como eu viesse 5 a 6 milhas atrás, também teve ele a amabilidade de dar duas voltas por cima da ilha, para ficarmos mais perto um do outro. Quando fizemos rumo para as Lajes, estávamos praticamente um por cima do outro, separados por 1000 pés de altitude.
    A aproximação das Lajes (salvo erro), separou-nos então através dos códigos transponder que nos foram fornecidos e de vectores radar. Eu e Delfim, ficámos encantados com a forma impecável como fomos controlados até à nossa aterragem e, aqui, fazemos o maior dos elogios ao controle das Lajes.

    Ao pôr as rodas no chão saltaram-me as lágrimas dos olhos com a comoção de ter aterrado - em Portugal e mais ainda numa Base da Força Aérea Portuguesa, instituição que venero e tenho o orgulho de ter pertencido.
    Fui instruído para rolar para a placa do Aero Clube da Lajes. Não vi o Delfim que julgava ter aterrado à minha frente. Pouco tempo depois fazia a sua aparição. Ainda dentro do avião falámos com a Comunicação Social.
    Depois de arrumados os aviões no hangar do Aero Clube, fomos gentilmente transportados para o nosso quarto nas instalações da Base Aérea 4, pelo seu 2º Comandante, o Senhor Tenente Coronel Piloto Aviador Faria.

    Após a banhoca da ordem, fomos convidados para jantar, pelo senhor Ten.Coronel Faria que, acompanhado de senhor Major-Médico, nos levaram a um restaurante muito simpático com vista para o mar e que, pelo facto de ser de noite, não podémos lamentavelmente desfrutar. Saboreámos todavia um maravilhoso cherne grelhado, acompanhado de um "brancol" de enveludar todo o tubo digestivo. Mais tarde o Senhor Coronel Costa Coelho reuniu-se a nós, apenas para beber um copo e participar na cavaqueira sobre a nossa Volta ao Mundo. Este jantar teve, para nós, um significado que, as minhas palavras não conseguem descrever.



António Faria e Mello

a seguir... Lajes-Tires

 

 
  © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003